Lost in (un) Translation/ Perdido na (falta de) Tradução

When I mention Portuguese, most people tend to think only of Brazil and Portugal, but the Lusophone world actually encompasses a number of other countries steeped in their own equally fascinating histories and cultures. Though people seem to underestimate Portuguese, often even confusing it with dialects of Spanish, it is a hugely important language spanning ten nations and four continents and with some 220 million native speakers.

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In Africa, we have Angola, Mozambique, Cape Verde, Guinea-Bissau, Equatorial Guinea, and São Tomé and Príncipe. In Asia, we have Timor-Leste, Macau in China, and Goa in India. Ignorance of these Lusophone countries likely stems from the fact that most scholarship in the field tends to center around Brazil and Portugal while largely ignoring the rest. This is not to say that Brazil or Portugal should receive any less attention or be disregarded in turn, as they are both compelling, highly diverse countries. Rather, I simply hope to help promote those other parts of the Lusophone world that have made invaluable contributions to Portuguese language and literature throughout the ages.

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Though certain novelists such as Mia Couto and Pepetela, from Mozambique and Angola, respectively, have been duly recognized for their talent and creativity, their literary compatriots – namely, the poets – have been entirely overlooked. And they are overlooked, I suspect, for several reasons. For one thing, their countries of origin are not considered significant in terms of global affairs; second, their countries are exceedingly poor; and thirdly, very few of the writers in question exist in translation. As a translator, I cannot pretend to affect change on the first two counts. I cannot alleviate the crushing poverty that afflicts them or extend their political influence. However, I can certainly give them a voice in English, and consequently the Anglophone world, by translating them into my native language.

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But translators must act fast, for not only have we worlds of prose and poetry as yet unknown to outsiders currently flourishing in their native countries, but we also have areas in which those traditions are at a very real risk of being lost forever. In regions such as Goa, where the significance of Portuguese language continues to fade due to disuse and the severing of its ties with Portugal after centuries of imperialism (officially ended in 1961), the archives are neglected and even disparaged, and few take interest in its preservation. In light of the many brilliant poets Goa has produced over the years, in Konkani and Portuguese alike (some even translated themselves from one to the other), this is nothing short of distressing. Fortunately, however, there are some people already working to preserve what they can. Dr Paul Melo e Castro, a lecturer in Portuguese Studies at the University of Leeds, has begun to digitize much of the literature he has found during his research on his blog “Archive of Goan Writing in Portuguese.” And Frederick G. Williams, a distinguished professor of Portuguese at Brigham Young University, has published a series of bilingual editions of Lusophone poetry, including Poets of Portuguese Asia: Goa, Macao, East TimorPoets of Angola, and Poets of Mozambique, among others.

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As for my (very small) contribution to the cause, I have translated several poems by Goan poets Álvaro Silveira, R. V. Pandit and Bicaji Ganecar (I have produced my translation followed by the original Portuguese). I just hope that my translations serve to give readers a taste of the goldmine that is Goan poetry. I hope you enjoy them.

Álvaro Silveira – “The Widow” (1982)

Trans. Samantha Edwards

There are those who call woman perverse

Attacking her, at times, without right

Woman is, in this world, a living light

An enchanting flower of the universe.

In her husband’s, her life always buried

With the smile of living inspiration

The widow’s heart a half, an amputation

The other half, the black cloak she carried.

She who was the star of his home

Becomes the suffering of humanity

To drift away in the vast sea, alone.

We must lift her with our common friendship, our helping hand

Restore her with benignity

And help her once again to stand.

 

Álvaro Silveira – “A viúva” (1982)

Há quem chame à mulher ente perverso

Atacando-a, por vezes, sem razão

A mulher é, no mundo, um vivo clarão

É flor encantadora do Universo.

Do marido a vida sempre embalou

Com o sorriso de viva inspiração

A viúva tem só meio coração

Outra metade, o negro manto a levou.

Ela que foi a estrela do seu lar

Torna-se um ente sofredor da humanidade

Solitária, a boiar no vasto mar.

Temos que ampará-la com amizade

Como o nosso ente familiar

E rehabilitá-la com benignidade.

 

 R. V. Pandit – “Leaf of the Tamarind” (1968)

Trans. Samantha Edwards 

It is a whole leaf

But divided into little

Parts

Each one of them

A whole …

The entire leaf

Is whole?

Is divided?

Such is my mind

Whole

But infinitely divided

Whole and divided

Much like a leaf of the Tamarind.

R. V. Pandit – “Folha do Tamarindeiro” (1968)

É uma folha inteira

Mas dividida em outras

Pequeninas

Cada uma delas

Inteira…

A folha toda

É inteira?

É dividida?

Assim é a minha mente

Inteira

Mas infinitamente dividida

Inteira e dividida

Tal qual uma folha do tamarindeiro.

Bicaji Ganecar – “The Stars” (1970)

Trans. Samantha Edwards

I thought about counting,

One day,

The stars

Of the cosmos.

At that moment

Fell a star,

A shooting star;

And I counted that one only

And the rest remained

For the counting.

Bicaji Ganecar – “As Estrelas” (1970)

Pensei em contar,

Um dia,

As estrelas

Do firmamento.

Naquele instante

Caiu uma estrela,

Estrela cadente;

E contei essa só

E as outras ficaram

Por contar

Perdido na (falta de) Tradução

Quando falo da língua portuguesa, geralmente pensamos somente em Portugal e no Brasil, mas o mundo lusófono é composto de vários países também cultivando uma história e cultura única e fascinante. Enquanto muitos têm a tendência de subestimar o português (ao ponto, às vezes, de confundi-lo com o espanhol!), é na verdade, uma língua extremamente importante que abrange dez nações sobre quatro continentes e tem aproximadamente 220 milhões de falantes nativos. Na África temos Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, e São Tomé e Príncipe. Na Ásia temos Timor Leste, Macau na China e Goa na Índia. A falta de conhecimento sobre esses países lusófonos é provavelmente o resultado dos escolares na disciplina que tendem favorecer o Brasil e Portugal às custas de ignorar aos outros. Não quero dizer que Portugal e Brasil não merecem tamanha atenção. É obvio que os dois são importantes e diversos. Só quero promover as outras partes do mundo lusófono que têm feito contribuições inestimáveis à língua e literatura portuguesa ao longo da história.

Embora certos novelistas como Mia Couto e Pepetela, de Moçambique e Angola, respectivamente, entre outros honores prestigiosos, recebam prêmios pelo talento e a criatividade evidente nas suas obras, os seus compatriotas – especialmente os poetas – permanecem ignorados e conseqüentemente invisíveis. E eles são ignorados, imagino, por várias razões: em primeiro lugar, os seus países de origem não são percebidos como significantes na política internacional; segundo, os seus países são pobres; e terceiro, esses poetas não existem na tradução. Como sou tradutora, é verdade que não posso afetar os primeiros dois fatores. Não posso aliviar a pobreza devastadora que os aflige nem incrementar a sua influência global. Entretanto, eu sim posso criar por eles uma voz em inglês, e todo o mundo anglófono, pela tradução, e isso é precisamente o que pretendo fazer.

Mas os tradutores de português têm de atuar rápido, não temos só os mundos de prosa e poesia florescendo na África e na Ásia que ficam desconhecidos pelos estrangeiros; também temos as áreas onde a tradição lusófona e a literatura produzida estão em risco de serem perdidas para sempre. Na Goa, por exemplo, onde a significância da língua portuguesa segue desaparecendo por causa do desábito e do corte de relações com Portugal séculos atrás, após o imperialismo (oficialmente acabado em 1961), se ignoram (ou mesmo depreciam) os arquivos, e há uma falta de interesse na sua preservação. Felizmente, algumas pessoas já trabalham para preservar tudo o que for possível. O Dr. Paul Melo e Castro, um conferencista de estudos portugueses na Universidade de Leeds, está no processo de digitalizar a literatura que encontrou durante sua pesquisa no seu blog “Archive of Goan Writing in Portuguese” [Arquivo de literatura goesa em português]. E Frederick G. Williams, um professor distinguido de português na Universidade Brigham Young, tem publicado uma serie de edições bilíngües da poesia lusófona, incluindo Poetas da Ásia Portuguesa: Goa, Macau, Timor LestePoetas de Angola, e Poetas de Moçambique, entre outras.

Para minha pequena contribuição à causa, traduzi três poemas goeses. Lhes apresento à poesia de Álvaro Silveira, R. V. Pandit e Bicaji Ganecar. Espero que estas traduções lhes ofereçam um gostinho da riqueza da poesia goesa. Desfrutem-nas!

 

Álvaro Silveira – “The Widow” (1982)

Trans. Samantha Edwards

There are those who call woman perverse

Attacking her, at times, without right

Woman is, in this world, a living light

An enchanting flower of the universe.

In her husband’s, her life always buried

With the smile of living inspiration

The widow’s heart a half, an amputation

The other half, the black cloak she carried.

She who was the star of his home

Becomes the suffering of humanity

To drift away in the vast sea, alone.

We must lift her with our common friendship, our helping hand

Restore her with benignity

And help her once again to stand.

 

Álvaro Silveira – “A viúva” (1982)

Há quem chame à mulher ente perverso

Atacando-a, por vezes, sem razão

A mulher é, no mundo, um vivo clarão

É flor encantadora do Universo.

Do marido a vida sempre embalou

Com o sorriso de viva inspiração

A viúva tem só meio coração

Outra metade, o negro manto a levou.

Ela que foi a estrela do seu lar

Torna-se um ente sofredor da humanidade

Solitária, a boiar no vasto mar.

Temos que ampará-la com amizade

Como o nosso ente familiar

E rehabilitá-la com benignidade.

 

R. V. Pandit – “Leaf of the Tamarind” (1968)

Trans. Samantha Edwards 

It is a whole leaf

But divided into little

Parts

Each one of them

A whole …

The entire leaf

Is whole?

Is divided?

Such is my mind

Whole

But infinitely divided

Whole and divided

Much like a leaf of the Tamarind.

RV Pandit – “Folha do Tamarindeiro” (1968)

É uma folha inteira

Mas dividida em outras

Pequeninas

Cada uma delas

Inteira…

A folha toda

É inteira?

É dividida?

Assim é a minha mente

Inteira

Mas infinitamente dividida

Inteira e dividida

Tal qual uma folha do tamarindeiro.

Bicaji Ganecar – “The Stars” (1970)

Trans. Samantha Edwards

I thought about counting,

One day,

The stars

Of the cosmos.

At that moment

Fell a star,

A shooting star;

And I counted that one only

And the rest remained

For the counting.

Bicaji Ganecar – “As Estrelas” (1970)

Pensei em contar,

Um dia,

As estrelas

Do firmamento.

Naquele instante

Caiu uma estrela,

Estrela cadente;

E contei essa só

E as outras ficaram

Por contar

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